Mãe solo de filho autista relata risco de vida durante crises e descaso do poder público e plano de saúde: 'Não tem a quem recorrer'
02/04/2025
(Foto: Reprodução) No Dia Mundial de Conscientização sobre o Autismo, g1 conta história de Bruna Rios e o seu filho, Igor, que se repete com outros nomes, mas dificuldades semelhantes, para trazer à tona realidade, muitas vezes, invisibilizada. Mãe de autista relata risco de vida durante crises e abandono do poder público e de plano de saúde
“Por que a polícia não veio? Por que o Samu não veio? Que descaso é esse com as famílias de pessoas autistas?”. Essas são perguntas que Bruna Rios se faz desde o dia 26 de março, quando seu filho, Igor, de 18 anos, teve um surto de ansiedade e extravasou os sentimentos e as sensações com uma explosão de violência. Igor é autista, com nível 3 de suporte e com deficiência intelectual.
Nesta quarta-feira (2), Dia Mundial de Conscientização sobre o Autismo, o g1 conta a história de Bruna e Igor. Uma história que se repete com outros nomes, mas dificuldades semelhantes. Uma forma de conscientizar a sociedade sobre uma realidade, muitas vezes, invisibilizada.
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Com 1,80 m e mais de 100 quilos, Igor é um homem adulto no porte físico, mas sem maturidade para lidar com as emoções. Foi diagnosticado com autismo aos 4 anos e, desde então, realiza uma série de terapias e acompanhamentos. Amoroso na maior parte do tempo, Igor começou a apresentar, desde 2022, algumas crises, com explosões de força. Igor é um autista não verbal, o que significa que não se comunica pela fala.
“Estava tomando banho e ele começou a bater a cabeça na parede. Quando saí do banho, tentei fazer ele parar, para ele não se machucar. Falei para parar e ele entrou em surto, ficou com raiva e partiu para cima de mim e me bateu. Para me proteger, me tranquei do lado de fora de casa e liguei para a polícia e a polícia não fez nada; disse que era para eu chamar o Samu”, relembrou Bruna Rios, em conversa com o g1.
Só de toalha, do lado de fora do apartamento e com medo de o filho se machucar, Bruna explicou que estava desesperada e se sentindo impotente, com medo de acontecer algo com Igor, que ficou sozinho dentro do apartamento.
“Pedi para eles me ajudarem, chamarem o Samu para mim. Eles disseram que era para eu me acalmar e eu mesma chamar o Samu”, contou Bruna Rios. Ao ver o desespero da mãe de Igor, uma vizinha conseguiu ligar para o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência.
Em seguida, o namorado de Bruna, que não estava no local, também conseguiu acionar o Samu (veja, no vídeo abaixo, imagens da crise).
Vídeo mostra momento em que Bruna Rios tenta conter crise do filho, Igor, que se descontrolou dentro da casa em que moram
“O Samu atendeu e falou: é o caso de Igor? A gente já está sabendo e está indo. Duas horas depois, eles não mandaram ninguém. Por que não mandaram ninguém? Meu filho estava em surto dentro de casa. Ele quebrou a casa inteira. E não chegou ninguém”, contou.
Mãe solo, Bruna vive sozinha com o filho desde que se separou de seu ex-companheiro, em 2020. O pai de Igor não convive com o filho desde que o menino tinha 1 ano e meio, e a família paterna também não participa do cotidiano do garoto desde a infância.
A mãe de Bruna já morreu, o pai dela é idoso, e a única irmã está grávida de quase nove meses e, neste momento, não pode ajudar. Bruna tem apenas uma tia, que ajuda em casos de emergência.
“Muitas mães passam pelo mesmo que eu passo, pelo que eu passei na terça [dia 26 de março]. Muitas mães ficam o dia inteiro trancadas com o filho dentro de casa porque não têm com quem dividir os cuidados e só elas cuidam dos filhos. É muito abandono. A gente não tem a quem recorrer”, complementou, lembrando que a realidade das famílias de pessoas do espectro autista é, muitas vezes, exaustiva e exige cuidados constantes.
“Não queria expor a minha vida, falar do que aconteceu. Como muitas mães não querem falar porque isso aumenta o estigma em relação aos nossos filhos. Mas tenho que falar porque não tenho a quem recorrer”, lamentou Bruna.
Bruna Rios e o filho, Igor, em foto de arquivo.
Arquivo pessoal
Clínica particular
Um dia depois do surto de Igor, a casa da família estava revirada, com muitas coisas quebradas e espalhadas pelo chão. Entre organizar a própria cabeça, limpar a casa e colocar os móveis no lugar, Bruna precisou parar para encontrar documentos e refletir sobre o que poderia fazer para garantir o tratamento que o filho precisava.
Como o Samu não apareceu para prestar o socorro que Igor precisava, no dia 26 de março, Bruna esperou o acesso de raiva do rapaz passar e ele se acalmar. Após entrar em contato com o médico psiquiatra que acompanha o filho, ela conseguiu levá-lo a uma clínica particular na Zona Norte do Recife.
Por 10 dias de internamento, Bruna Rios precisou pagar R$ 8,8 mil, além das diárias de dois cuidadores, que ela chama de babás de Igor.
Para conseguir o dinheiro, contou com a ajuda da tia e de vários amigos que se juntaram para conseguir o valor total dos primeiros 10 dias. Os amigos continuam fazendo doações para ajudar nesse momento crítico, mas Bruna não sabe o que fará a partir da quinta-feira (3).
"Os primeiros 10 dias vencem na quinta; ironicamente, um dia depois do Dia Mundial de Conscientização sobre o Autismo. Ainda tenho algum dinheiro, que as pessoas continuaram doando, para mantê-lo mais uns dias nessa clínica. Ele está muito medicado neste momento. Depois disso, eu não sei", diz Bruna Rios.
Internamento e hospital-dia desde 2022
A solução provisória, até que o quadro de Igor se estabilize, é mais um capítulo da jornada de Bruna Rios pelos direitos do filho. Pagando a mensalidade da Amil desde o nascimento do menino, em 2007, a família passou a ter problemas com a operadora de saúde desde que o ele precisou ser internado pela primeira vez, em 2022.
Igor foi encaminhado para uma clínica conveniada ao plano de saúde, em Aldeia, no município de Camaragibe, no Grande Recife. O tratamento foi feito até setembro de 2024, alternando momentos de internação, com terapias específicas. Bruna tinha livre acesso à clínica e podia ver o filho sempre.
A situação mudou quando, no segundo semestre de 2024, a clínica passou a colocar outros pacientes no mesmo apartamento do garoto, agora com 18 anos. Segundo os laudos médicos sobre a condição de saúde de Igor aos quais o g1 teve acesso, ele precisa estar num lugar com privacidade, por causa de diversas características do tipo de autismo que ele tem.
Diante das manifestações de Bruna Rios sobre a impossibilidade de compartilhamento do mesmo ambiente com outras pessoas, ela conta que a clínica deu alta compulsória ao filho dela. Ele, sem outra alternativa de internamento através do plano Amil, precisou interromper a terapia contínua, voltando a ficar todo o tempo em casa, o que agravou a sua situação de saúde, segundo a mãe.
Autônoma, Bruna Rios trabalha com comunicação e marketing, e conta com a sazonalidade do trabalho e da renda instável para manter a família e o tratamento que Igor precisa. Ela calcula um gasto de cerca de R$ 8 mil por mês apenas com as necessidades do filho.
Entre as despesas mensais, estão cuidadores, alimentação, medicamentos, consultas particulares para terapias que o plano não cobre, uso de ar-condicionado praticamente o dia inteiro e transporte por aplicativo, pois o autismo de Igor o deixa sensível ao calor, a ruídos e à presença de muitas pessoas ao mesmo tempo, o que impede o deslocamento por meio de transporte coletivo.
“O que eu posso fazer para evitar que ele entre em surto, eu tento”, afirma a mãe.
A família recebe o Benefício de Prestação Continuada (BPC), no valor de R$ 1.508, e um desconto na conta de energia, mas os dois benefícios não cobrem o gasto mensal com as necessidades do jovem.
“O plano de saúde não é caro, eu pago desde que ele nasceu e não posso perder de jeito nenhum. Atualmente, a mensalidade é R$ 300, porque o contrato é antigo. Mas, se eu perder, não vou conseguir pagar outro. Nem a própria Amil eu vou conseguir pagar e nem sei se outro plano aceitaria Igor”, preocupa-se Bruna.
Antes de Igor sair do período de internação e hospital-dia, no qual ficou entre 2022 e 2024, Bruna pegava os medicamentos no Sistema Único de Saúde (SUS), na Praça Oswaldo Cruz, no bairro da Boa Vista, no Centro do Recife. No entanto, explicou que não consegue mais levar o menino com ela para esperar a entrega dos remédios.
“Quando Igor era pequeno, eu ia com ele, e a gente ficava na fila, que tem muita gente. Mas agora que ele é grande, não consigo levá-lo para ficar esperando na fila. Ele tem 1,80 m, fica impaciente, é muito difícil. Se tivesse uma assistência social e chegasse o remédio na minha casa, mas não é assim. É muito desgastante, e ele fica nervoso”, contou.
Decisão judicial
Um advogado tem representado Bruna, acionando o Judiciário na tentativa de obrigar o plano de saúde Amil a arcar com essas despesas pelo tempo que Igor precisar (veja mais abaixo).
“Ele está medicado, para não se machucar. Sempre tem um cuidador com ele, que o conhece. São turnos de 12 horas; R$ 150 para cada turno de 12 horas. Tive que pedir ajuda, e os amigos fizeram o que puderam. Não sei como vai ser. Espero que até lá [quinta, dia 3] eu consiga alguma decisão [judicial] para que o plano de saúde pague, ou reembolse esses valores”, falou, preocupada.
Na primeira tentativa, no último fim de semana de março, a família teve pedido de liminar por reembolso Amil dos valores gastos com a internação em clínica particular negado pela juíza Ana Paula Lira Melo, do plantão judiciário, que analisou o caso.
A decisão, legalista, considerou que a mãe deve entrar com o procedimento na Justiça comum, seguindo os prazos processuais, que podem extrapolar os valores que Bruna conseguiu arrecadar quando precisou levar Igor para a clínica particular.
O advogado Adriano Vidal, que representa Bruna e Igor, explicou que mesmo seguindo a legislação, a decisão pode colocar a família numa situação ainda mais vulnerável, em termos financeiro e em relação à integridade física de mãe e filho.
"A decisão coloca Bruna numa situação de vulnerabilidade porque ela não tem recursos para custear o tratamento e, se não conseguir pagar, vai precisar levar o filho para casa, ainda passando por uma crise. Isso coloca ela e Igor em risco", afirmou Vidal.
Adriano Vidal explicou que no lugar onde está internado neste momento, os médicos já se posicionaram sobre a situação do garoto, que neste momento precisa de internamento por tempo indeterminado, até que a situação mais crítica seja contornada.
Após ser procurado pelo g1, o plano de saúde Amil enviou uma nota dizendo que está em contato com Bruna Rios para realizar o acolhimento Igor e "o agendamento imediato com prestadores credenciados especializados, observando seu quadro clínico atual, a proximidade geográfica de sua residência e a oferta de serviços compatíveis com suas necessidades terapêuticas".
O que diz a prefeitura do Recife
A Secretaria de Saúde do Recife, responsável pelo Samu na capital pernambucana, informou que o Samu Psiquiátrico conta com uma Unidade de Suporte Básico (USB) exclusiva para atender pacientes em surto psiquiátrico.
Disse também que:
no momento do chamado mencionado pela reportagem, por volta das 19h, a equipe especializada estava em atendimento no bairro da Várzea, na Zona Oeste do Recife;
em seguida, a equipe se deslocou para outra ocorrência no Ibura, na Zona Sul da cidade;
após a finalização desses atendimentos, "foi realizada uma tentativa de contato com o solicitante para confirmar a necessidade da assistência, porém, a chamada não foi atendida e não houve nova solicitação ao Samu 192".
Resposta do governo de Pernambuco
A Secretaria de Defesa Social de Pernambuco (SDS) informou ao g1 que, diante da solicitação de atendimento pelo número 190 no dia 26 de março:
cada órgão de emergência tem atribuições específicas, conforme determina a legislação vigente e os protocolos de atendimento de urgência;
Bruna buscou auxílio para situação de saúde envolvendo seu filho, com Transtorno do Espectro Autista (TEA), mas ocorrências desse tipo exigem atendimento especializado do Samu, acionado exclusivamente pelo número 192;
o Samu conta com equipes treinadas e equipadas para prestar assistência médica e garantir o manejo adequado nesses casos;
o serviço 190 é destinado exclusivamente a emergências policiais;
o sistema dos telefones de três dígitos (190, 192 e 193) apenas recebe chamadas, então um atendente do 190 não tem como registrar ou acionar diretamente o Samu;
a orientação dada seguiu protocolos estabelecidos, garantindo que Bruna recebesse direcionamento correto para obter o suporte necessário;
solidariza-se com as famílias que enfrentam situações de urgência e reforça a importância de acionar os canais adequados, para que cada órgão possa atuar dentro de sua competência, garantindo atendimento rápido e eficaz.
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