Entenda por que peixe com 'dentes fortes' tem atacado banhistas em Bonito (MS)
03/04/2025
(Foto: Reprodução) Casos de mordida de peixes vêm sendo registrados em lagoa artificial de atrativo turístico do município. Local está interditado. Entre as espécies que atacaram banhistas está o tambaqui, que não é característico da região. Turista levou oito pontos ao ser mordido em balneário
O Instituto de Meio Ambiente de Mato Grosso do Sul (Imasul) interditou um balneário em Bonito após ocorrências de ataques de peixes a banhistas, na última semana. Conforme apurado pelo g1, somente neste ano foram registrados 30 casos no local. No ano passado, foram 64 ataques do tipo. Veja o relato de uma das vítimas no vídeo acima.
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Os registros ocorreram em uma lagoa artificial do atrativo onde são encontradas, sobretudo, espécies como o tambaqui (Colossoma macropomum). Entre as vítimas, está um homem que pediu para não ser identificado. Ele relatou ao g1 que foi atacado em 2023 e levou oito pontos em um dedo da mão.
Tambaqui (Colossoma macropomum). Espécie ocorre na bacia Amazônica.
Reprodução/Brian Gratwicke
Segundo o biólogo e professor visitante da Universidade de Campinas (Unicamp), José Sabino, que atua na região de Bonito, a espécie não tem ocorrência na bacia do Alto Paraguai, que abrange os rios da região, e é encontrada em áreas de planície da bacia Amazônica.
“O tambaqui é um peixe amazônico e se assemelha ao pacu. Mas, ele tem uma dentição muito robusta, com dentes que lembras nossos molares. Ele ocorre em locais de floresta inundada e se alimenta de frutos mais duros e castanhas”, explica o professor.
O fato de consumir alimentos mais duros, conforme Sabino, faz com que a mordida do tambaqui tenha força, o que pode causar ferimentos graves em humanos.
“Por se alimentarem de frutos, os tambaquis e outros peixes também, ficam sempre atentos a qualquer movimento dentro d´’gua, podendo se confundir e, ocorrendo então a mordida em banhistas”, continua Sabino.
Introdução de espécies exóticas
A introdução de espécies exóticas em ecossistemas diferentes dos naturais, ou seja, onde há ocorrências dessas espécies, é considerada crime ambiental no Brasil.
De acordo com o professor José Sabino, o deslocamento intencional de espécies para outros habitats é um dos vetores da destruição da biodiversidade no planeta.
“Você tem a destruição de habitats, você tem a poluição, o tráfico de animais e a poluição que impactam a biodiversidade. O outro vetor é a introdução de espécies exóticas. Quando você introduz, você não tá garantindo que aquela espécie vá se estabelecer”, afirma o professor.
No caso específico do atrativo interditado, o professor acredita que houve certo despreparo ao se introduzir a espécie na lagoa artificial. Ele defende que é preciso fazer um diagnóstico do problema para mitigar o impacto.
“Uma sugestão é que os peixes sejam retirados do local, porque não adianta por uma tela ali [para evitar que os peixes voltem para a área dos banhistas], porque daqui a pouco tiram a tela ou os turistas pulam a cerca para olhar os peixes mais de perto. Ambientalmente correto, é retirá-los”, finaliza Sabino.
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Liberação do órgão ambiental
Após o registro das ocorrências de ataques aos visitantes do atrativo, o Imasul suspendeu, em uma primeira determinação, o funcionamento total do local, no dia 26 do mês passado. Três dias depois, parte das atividades foram liberadas, mas a lagoa onde os incidentes ocorreram permanece interditada. O atrativo tenta reverter a decisão.
Para o professor, além da responsabilidade do empreendimento em relação aos ataques, é preciso indagar, também, como o órgão ambiental autorizou o funcionamento do local e a introdução da espécie na lagoa.
“Como é que licencia um passeio com uma espécie exótica, no sentido de ser translocada entre bacias? Isso é proibido por lei”, questiona.
O g1 entrou em contato com o Imasul e não obteve retorno até a mais recente atualização desta reportagem.
Banhista foi mordido por peixe em atrativo de Bonito em 2023.
Arquivo pessoal
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