Câncer de boca: microchip brasileiro detecta metástase e pode evitar cirurgias desnecessárias
13/08/2025
(Foto: Reprodução) CNPEM desenvolve biossensor que identifica metástase pela saliva de pacientes com câncer
Pesquisadoras do Centro Nacional de Pesquisa em Energia de Materiais (CNPEM), em Campinas (SP), desenvolveram um microchip capaz de identificar sinais de metástase em pessoas com câncer de boca. A expectativa é que a tecnologia ajude a evitar cirurgias desnecessárias entre pacientes que estão tratando a doença.
Com o trabalho publicado em uma revista científica internacional, Adriana Franco Paes Leme e Luciana Daniele Trino, responsáveis pelo projeto, dizem que o dispositivo deve estar disponível em consultórios médicos e odontológicos, além de hospitais, em até três anos. A seguir, entenda como ele funciona e qual a importância.
Como funciona o sensor de metástases de câncer de boca
O biossensor usa nanotecnologia e cabe na palma da mão. Ele consegue revelar, por meio de amostras de saliva do paciente, se há a presença de proteínas que são associadas à metástase. Para isso, a metodologia funciona da seguinte maneira:
o dispositivo com a saliva é colocado em um equipamento para leitura;
algoritmos de inteligência artificial identificam os marcadores da metástase;
as informações são transformadas em gráficos que podem ser analisados pelo médico.
“Nós temos informações da literatura que chega a até 70% dos casos onde é feita a cirurgia, que o paciente é elegível para a cirurgia, mas não é diagnosticado metástase nos linfonodos”, detalha Adriana. Segundo a pesquisadora, é para evitar esse problema que o chip foi criado.
Entenda: com a tecnologia, o paciente só precisará de cirurgia para remoção de órgãos adjacentes se houver, de fato, houver a confirmação da metástase.
“A primeira questão é dar acesso ao paciente. O paciente deve ter esse acesso. E o segundo ponto é como que nós vamos resolver, em nível populacional, o custo que está envolvido nessa detecção de metástases”, completa.
Câncer de boca: microchip brasileiro detecta metástase e pode evitar cirurgias desnecessárias
Jefferson Barbosa/EPTV
Sistema portátil e de fácil acesso
O trabalho tem apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), e foi planejado para ter baixo custo. Além de ser usado em dispositivos móveis, o formato portátil permitirá que ele chegue a locais distantes, como comunidades indígenas. A próxima etapa é o desenvolvimento em larga escala para implementação no Sistema Único de Saúde (SUS).
“Essa análise vai ser mais rápida, mais direta, e pode estar presente nas clínicas de modo mais fácil. A ideia é desenvolver um aplicativo, juntamente com esse dispositivo, para a gente conseguir analisar diretamente a saliva do paciente e ter essa resposta ali na hora”, explica Luciana. “Nosso objetivo é disponibilizar isso para toda a população do Brasil”.
Alertas e riscos do câncer de boca
Aos 76 anos, Valdomiro José Gonçalves perdeu dentes, parte do axilar, glândulas do pescoço e até nervos do braço depois que o prontuário médico apontou um carcinoma. O tumor começou na parte interna do lábio e se espalhou. Foram cirurgias e sessões de radioterapia na luta pela vida.
“Quase que eu não falo. Hoje eu falo muito mal, mas tô conseguindo falar. E ele tava atingindo as cordas vocais também. [Não voltou mais], até hoje, não. Mas eu não posso descuidar. Adoro a minha vida, então tenho que ficar atento”, comenta o aposentado.
O oncologista Francesco Sansone Bermejo diz que o câncer de boca é o quarto que mais atinge homens na região Sudeste, e os sintomas, muitas vezes, passam despercebidos. “O principal é o surgimento de uma ferida dolorosa na boca e que geralmente ela não cicatriza”.
“Então muitas vezes o paciente pode achar que é uma afta, alguma coisa que vai passar rápido, mas ao longo do tempo ele percebe que isso não vai melhorando e, eventualmente, com a progressão dessa lesão, pode ter muita dor, sangramento”.
O especialista detalha também que o cigarro e o consumo excessivo de bebida alcoólica estão associados ao surgimento da doença. No entanto, lembra que o diagnóstico precoce aumenta as chances de cura e que a investigação de metástases é fundamental.
“A gente faz [o diagnóstico] a partir de exames de imagens, sejam tomografias, ressonância, eventualmente, um PET scan, para observar se esse tumor é uma doença localizada, se está ali na região onde nasceu, na cavidade oral, ou se ele já se espalhou para outros órgãos”.
“Tem que ter muito cuidado, principalmente, com o tórax, com o pulmão, que é um dos principais sítios de metástase do câncer de boca”.
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